Há quem diga que somos o que comemos, eu acho que somos o que fazemos. Cada acto nosso tem uma consequência em nós e nos outros, a cada dia que passa sinto mais as consequências dos meus actos e dos actos daqueles que me rodeiam.
Eu não consigo passar indiferente ao sorriso de uma criança, nem ao seu choro. Não suporto a injustiça e a inveja, e decididamente, não consigo entender o abandono, seja ele de um ser racional ou irracional.
Hoje pelo meu caminho vi uma senhora a lutar para tirar um cão da estrada, tentei passar indiferente, tal como 99% das pessoas que passavam, mas o meu coração apertado não deixou. O pobre animal quase tremia, rabo entre as pernas, aproximou-se dela porque queria água. A alma caridosa estava a limpar as escadas de um prédio e ao ver o cão em risco de atropelamento, foi busca-lo, mas ele tinha tanto medo que se recusava a subir o passeio. Com muita paciência ela conseguiu puxa-lo e afasta-lo do perigo.
As pessoas afastavam-se, como se algo ruim ali estivesse, depois de fazer umas festas ao animal para o acalmar, fui ao veterinário que fica perto pedir ajuda. Disseram-me que ele já lá tinha passado à porta mas que se recusara a entrar, mesmo assim confirmaram e não tinha chip. Enquanto isto chegou uma senhora de idade avançada, foi fazer o mesmo que eu...
Voltei, a tentar encontrar uma solução, a única coisa que me ocorria era pegar nele e leva-lo para casa, mas pô-lo onde? Fechado num apartamento minúsculo, e leva-lo como? Estou a falar de um animal do meu tamanho... No local onde tinha deixado o cão continuava a senhora a segura-lo pela coleira, era notório no rosto dela que não podia fazer nada mais, mas que não queria deixa-lo ali sozinho...
Tirei-lhe uma foto, coloquei de imediato no facebook, mas nada, apenas dois amigos partilharam a foto. Liguei ao canil, por muito triste que seja o destino da maioria dos cães recolhidos, ao menos têm água, comida e um fim digno quando não são resgatados. Pelo menos quero pensar que assim seja...
Ao telefone obrigaram-me a identificar o meu nome e morada para tomarem nota da participação de abandono e irem ver o que se passava. Não sei se foram. Passado 1 hora do ocorrido passei de carro no local e já não vi a senhora em causa, nem o cão.
Fica o desabafo e a foto, se alguém o conseguir identificar, estará possivelmente no Canil Municipal do Porto. É um lavrador preto, adulto, muito meigo, aparentava já ter alguma idade. Não tinha sinais de maus tratos.
