Hoje acho que vou fazer como o bom português faz ao jornal, vou começar pelo fim. Às 23h, finalmente o meu dia parece acalmar, sento-me em frente ao PC, a olhar de lado para a roupa que continua por passar a ferro e vou direitinha ao Facebook. Depois de incredulamente ver no mural: "
Adopção de Animais Amigos este é o cachorro n.º99 do nosso album de cães para adoptar. Vejam bem a quantidade de animais a precisar de uma familia! Hoje já ultrapassamos os 100. Por isso ADOPTEM (com responsabilidade), ESTERILIZEM os vossos animais e IDENTIFIQUEM-NOS com chapas (atenção que a chapa deverá conter o nome do DONO e o telef. e não o nome do animal). Assim o cenário português vai começar a mudar! Obrigada" e de chamar muitos nomes feios às mães das pessoas que abandonam os animais decidi torturar-me mais um bocado e continuar a ver...
Como eu devo ter uma veia masoquista decidi entrar no albúm "Para Adopção - Cães" e dar uma vista de olhos. Fiquei incrédula, o nº 29 ainda lá está, aquele focinho lindo e simpático que fez com que eu ganhasse a coragem de retomar a luta pelos animais abandonados, em Maio passado, ainda está no canil do Porto, isto se não tiver já sido abatido. Parece que alguém o ía lá buscar, mas não há confirmação.
Eu pensei muito em ficar com ele, estive mesmo para o ir ver, mas não fui, porque sei que o meu coração não ía deixar que ficasse lá e também sei que não tenho onde por um cão tão grande. Tentei, falei a amigos colegas de trabalho, família... Ninguém aceita um amigo, que espécie de sociedade é esta em que nós vivemos? O que é que eu posso fazer, traze-lo para casa e deixa-lo o dia todo a ladrar para o do vizinho da frente? (Triste animal preso na varanda esteja a chover, nevar ou a bater o sol a quem a Íris baptizou de Au-au Mau.)
Enfim, consegui sentar-me em frente ao PC às 23h, dizia eu, porque a Íris hoje fez uma birra que durou das 21:30 às 22:43. Chegamos a casa, como de costume, da casa dos avós e lá foi ela arrumar o casaco, a chupeta e saltar para cima da minha cama. Num acto de permissão tirei-lhe os sapatos, a cama ainda estava e está por fazer, e pronto, gritos... Eu hoje tentei manter a calma, deixa-la acalmar sozinha, não berrei, não lhe dei a merecida palmada, nada. Ignorei por completo até aqueles gritos me fazerem visualizar a a linha ténue entre a sanidade e a insanidade mental.
Entre gritos, choro, baba, ranho e sei lá mais o quê consegui fazer toda a rotina diária, ir ao pote fazer caca, lavar os dentes, tomar banho, por creme, pentear, limpar o nariz e até lhe cortei as unhas (confesso que aproveitei que já estava a chorar e já...). Mas quando a rotina terminou e a birra continuou, sem querer o leite nem dormir visualizei o meu limite. Pensei "é desta que perco a cabeça!"
Antes que fizesse alguma asneira virei costas, deixei-a sozinha dentro da cama de grades, a chorar e vim para a sala. Acho que estava capaz de deitar a mão a qualquer maço de tabaco, bebida alcoolica ou caixa de chocolates, precisava de qualquer coisa que me aliviasse o stress nem que fosse por um segundo e voilá, comecei a meter as fotos que fui buscar ontem ao shopping no albúm, imagens tão lindas, caras tão felizes, entre elas a minha...
Lá fui eu pegar na miúda ao colo, como faço sempre desde que deixei de a carregar na barriga, fiz um carinho, pedi-lhe um beijinho, ela vencida pelo cansaço lá cedeu, aceitou o leite e adormeceu. Rezei, como faço sempre, para pedir paz e agradecer cada dia. Acho que quanto mais sofro, mais valorizo a alegria. Como mãe aprendia perdoar e a aprender, mas também a questionar-me a toda a hora se estarei a seguir o caminho mais correcto.
Isto foi só o fim do dia, a parte soft, como no jornal... Entre outras coisas tive direito a ouvir gritos loucos, senti frio, calor, frio e mais calor (o que piorou valentemente a minha constipação) tive de me desviar de condutores alucinados, mais uma vez não tinha luz nas escadas do prédio, enfim, nem vou inumerar mais nada para não rever o meu dia desde de manhã, este texto já está a ficar tão grande que, até para mim, já se está a tornar maçador....
Conselho às mães: Os miúdos não trazem livro de instruções nem botão de desligar, aprendam e respirar fundo e contar até 10, 100 ou 1000 se necessário.
Apelo a todos os que tiveram coragem de ler até ao fim: Adoptem um animal, mas não o façam por impulso, porque é fofo e giro, façam-no porque se sentem capazes de manter uma amizade para a vida e garantam que reúnem as condições mínimas para que essa amizade seja saudável para ambos.
Vá, hoje chega!!