quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Eu queria ser criança outra vez para poder ser sincera...

As crianças são dotadas de uma sinceridade tocante, dizem e fazem coisas que nos despedaçam o coração com a sua pureza e honestidade. Há muitas crianças sem pai nem mãe, há muitas que os têm, mas que pelas voltas da vida os têm longe. A essas temos de explicar porque é que o papá ou a mamã estão longe, e regra geral elas entendem e fazem-no até melhor que nós, que explicamos sem entender a dor da separação.

Ainda eu não tinha passado por esta dor e ouvi uma história que me tocou, uma amiga do Zé contava que assistiu a uma chamada telefónica em que um colega de trabalho, um pai muito triste explicava ao seu filho de 5 anos que não poderia ir a casa no fim-de-semana. A criança respondeu: "...não chores papá, eu também não choro..."

Mais cedo do que eu pensava, fui eu que fiquei com uma bebé enquanto o pai foi trabalhar para longe. Por sorte ela era muito pequenina para entender que o papá não estaria cá no Natal, e teve um avô com muita paciência que lhe explicou que o papá foi no avião trabalhar, "foi ganhar tostão," era assim que se dizia às crianças antigamente. Ela entendeu, já passou um ano e mesmo quando o pai está e passa um avião ela aponta e diz: "Avião papá!"

Nas vésperas da partida do Zé estivemos com a esposa de um colega que tem dois filhos, e em que, o mais velho começa a não aceitar esta dor da distância, quando vínhamos para casa o Zé contou-me que esse menino de 6 anos disse ao pai quando este lhe explicava que precisava de ir, "...mas eu preciso de ti aqui!"

Claro que me desfiz em lágrimas, uma criança pode dizer estas coisas sem ser censurada, porque é criança, ainda não foi corrompida por este mundo em que vivemos, ninguém irá criticar a sua honestidade.
O Zé partiu ontem, como de costume a Íris não disse uma palavra, dormiu bem e quando acordou de manhã disse: "Papá?" - "Foi no avião filha, não tem lembras?" - Disse eu de coração apertado. Nem mais uma palavra. Bebeu o leite, fez as fitas do costume e à saída para a escola virou-se para o cão, como faz sempre: "Tu não vais!" E depois acrescentou: "O papá também, não vai, foi no avião."

É isso, o papá foi no avião, tão simples, tão puro... E ela é tão pequenina, mas mesmo assim consegue racionalizar melhor a dor da partida do que eu. Também gostava de conseguir ser assim...


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