"Pronto, mamã, não chora, já passou..." - Foi assim que a minha bebé me chamou de novo à realidade, pois eu chorava com ela nos braços embrulhada numa toalha em vez de a secar e de a vestir. Por muito que eu tente estou a seguir o caminho que os meus pais seguiram comigo e isso não me agrada...
Um feriado em família é sempre um dia complicado, especialmente quando essa família não se entende. Mesmo assim, tentei, fui com os meus pais e a minha bebé a casa dos meus tios, levei eu o carro, apesar das críticas constantes à minha condução, chamei à atenção inúmeras vezes pelo uso de palavrões em frente da menina, aguentei tudo.
No fim do jantar deu uma reportagem sobre uma senhora vítima de Alzimer, e que, aos 51 anos está totalmente dependente da família, com 3 filhos entre os 17 e os 22 anos, como muitos neste país é mais um caso prioritário nas imensas listas de espera para internamento numa instituição capaz de dar apoio permanente. É um caso raro na idade em causa, mas que, segundo o Neurologista que a acompanha, irá terminar em estado vegetativo.
Para não variar, lá fiquei de lágrimas nos olhos, fiz grande esforço para ouvir, tendo constantemente de aumentar o volume, pois ninguém respeita o facto de eu querer ver 15 minutos de televisão, e no fim ainda tive de contar ao meu pai que esteve o tempo todo em frente à televisão, mas não prestou atenção, o que se passou... Enfim!
A seguir a Íris decidiu fazer uma birra, e há coisa que eu tenho tentado vincar fortemente, eu é que sou a mãe, posso estar errada, mas na minha presença eu é que mando e se eu digo não, é não e acabou. Claro, mais uma discussão, lá veio a miúda a chorar para casa e a esta hora aposto que ainda estou a ser insultada valentemente por ser uma péssima mãe...
De facto, há alturas em que penso que sou uma péssima mãe, especialmente quando cometo os mesmos erros que cometeram comigo. A Íris tem tudo o que o dinheiro pode comprar, só não tem mais porque não cabe cá em casa. Come tudo quanto e porcaria, e culpa de quem? É verdade, muitas vezes culpa minha, porque cedo e dou. Tento compensar a ausência do pai e dou mais ainda. Depois tenho pouca paciência porque tenho um péssimo ambiente familiar e, claro, volto a dar a ver se ela se cala um bocadinho...
Depois há os dias em que não tenho paciência de todo e não lhe falo bem, castigo-a por parvoíces de criança, e claro, sinto-me ainda pior... A Íris é uma criança muito irrequieta e que requer muito de nós, meia hora com ela serve para gastar as energias de qualquer adulto, 3 dias seguidos deveria dar direito a internamento psiquiátrico.
O amor de mãe é infinito, mas não podemos perder o amor por nós próprios ou perdemos a capacidade de amar. Eu sinto-me muitas vezes a perder-me. Não tenho uma pausa, não saio com os amigos, não vou a jantares, ou às compras, não saio à noite, nada... Às vezes sinto que não tenho vida e penso que quando a Íris crescer e se tornar independente serei um ser frio e revoltado, como é a minha mãe ,e que a ela vai olhar para mim e ver isso espelhado no meu rosto, vai ver-me amargura no olhar, e é esse um dos motivos porque eu choro, porque não é assim que eu quero que ela me veja, não é assim que eu quero ser lembrada...
Neste momento não tenho forças que me façam seguir outro caminho, sinto que o amor de mãe da minha mãe, se existiu, já se extinguiu na amargura, e o que é pior é que sinto-a consciente disso. Mas essa consciência faz com que eu me torne na culpa de tudo e com que a "única razão de viver" seja a neta, e são as palavras dela, para ferirem mais um bocadinho e para me fazer ver que se me for embora e levar a minha filha, a vida dela acaba.
Eu não gosto de me lamentar, comecei a escrever este blog por achar que já é massador para os meus amigos aturarem-me sempre com os mesmos problemas. Nisso posso agradecer à minha mãe, pois passados mais de 10 anos voltei a escrever. O curioso é que como a maioria das minhas coisas foi para o lixo com o início das obras, já nem os meus escritos iniciais restam. Eu não tive tempo de seleccionar o que queria guardar e não tenho espaço em casa, tudo o que era capa, folha ou caderno foi parar ao contentor do lixo sem dó nem piedade. Assim se destruíram as memórias do meu passado, e já que não há passado, só peço forças para construir um futuro diferente para mim e para a minha família.
Depois de ler o que escreveste (e tens vindo a escrever) torna-se difícil ordenar as ideias e elaborar uma resposta "com pés e cabeça" (principalmente porque tento fazê-lo no escritório e tenho de dar prioridade ao trabalho).
ResponderEliminarPodia dizer-te que é verdade, a tua mãe faz chantagem emocional/psicológica contigo quando te diz "única razão de viver" é a neta e acaba por te deixar constrangida; podia dizer-te para deixares de ir lá, comprar outra casa mais longe para ser um corte radical, mas a 6000Km é fácil de dizer, mas difícil de fazer sozinha conhecendo a Íris como conheço.
Podia dizer-te que deverias "dar um murro na mesa" em relação à forma como os teus pais se relacionam contigo (a todos os níveis). No fundo, tens/tiveste uma colega de trabalho que teve exactamente os mesmos problemas que tens agora e isso acaba por mostrar que o velho ditado tem razão: quem casa quer casa (não é que fique satisfeito com o mal dos outros, mas saber que não somos os únicos acaba por dar um pequeno alento).
Por isso, pouco me resta dizer senão "é uma fase passageira e o Soyo não há-de durar para sempre, para bem de ambos". Para podermos voltar a ter uma vida mais normal, mais nossa, sem interferências de 3ºs; quer seja aí ou noutro lado qualquer.
O resto já sabes, não preciso de te repetir até à exaustão ;)
Beijos.